Houve um passado em que a várzea de Itaquera possuía muitos campos, em sua maioria ficavam às margens das várzeas dos rios Jacu e Verde. Estes campos atraíam grande parte da população nos finais de semana para assistirem aos espetáculos, gratuitos, apesar disso de grande qualidade, que eram proporcionados pelos craques que ali desfilavam sua arte.
Recordo do campo do Elite, era bem ali onde agora passa o viaduto da Estrada do Pêssego e fica instalado, de forma definitiva, o parque de diversões. Bem no coração de Itaquera.
No gol do fundo havia o Rio Jacu e no gol da frente ficava o barranco, meu local predileto para ver os jogos. Na outra lateral era o brejo, onde muitas bolas, principalmente as dos adversários, caíam e não mais retornavam para o jogo, sendo vistas, pelos garotos, exclusivamente quando os donos já haviam ido embora.
Nos domingos, já bem cedo, o público Elitiano vinha para ver o juvenil, depois o extra, e na parte da tarde os mais saudosos assistiam às partidas dos veteranos.
Os garotos que eram os gandulas, principalmente no verão, torciam para a bola cair no rio, pois para eles era uma glória mergulhar da ponte e sair com o troféu que era a bola. Caso o Elite estivesse perdendo o jogo, isto era feito em tempo recorde, caso contrário, a briga entre os garotos para ver quem entregaria a bola era longa e irritava os adversários.
Foi ali no campo do Elite que Cebolinha derrubou com uma pedrada o helicóptero do Bradesco que todos os dias pousava no centro do campo para trazer e buscar os malotes do banco. (esta é uma história que contarei aqui nesta coluna brevemente)
O campo de terra vermelha, não havia um pé de grama. Era todo cercado com alambrado de caibros pintados da cor do time, vermelho e branco. Suas linhas, sempre bem-marcadas com a cal branca, delimitavam um campo de jogo muito grande, penso eu que maior que as dimensões oficiais.
O Campo do Elite foi palco da maior batalha entre torcidas que já pude assistir, quando num jogo histórico contra o Santa Cruz de Guaianazes (time do Isidoro Matheus), que era o maior rival do Elite, o pau comeu solto. Iniciou no campo de jogo, se espalhou através da torcida e durou mais de hora, com correria para todo lado. Foi necessária a chegada do batalhão de choque da polícia para terminar a briga. Até mesmo a sede do Elite foi perfeitamente apedrejada através da torcida do Santa Cruz.
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Nenhum tiro, nenhuma facada, nenhum morto. Naquela época, eram comuns as brigas em campo, mas eram decididas no braço e na chinela.
Eu nasci e fui criado no Morro do Falcão. Este nome é derivado do time que é o Falcão do Morro Futebol Clube, em homenagem a João Mendonça Falcão, que em 1954 era o Secretário de Esportes e doou o primeiro fardamento para o clube quando de sua fundação.
O campo do Falcão fica exatamente no alto do morro, como se o cume fora cortado e o tampão retirado para lá ser instalado o campo que sobrevive existe mais tempo em atividade contínua em Itaquera.
É pequeno, pouco maior que os usados hoje em dia para a prática do futebol Society, e suas laterais são delimitadas pelos vértices do morro.
Não me recordo de ter visto algum dia linhas demarcando o campo, nem mesmo a área era sinalizada.
Antes de começar uma partida, o capitão do time do Falcão levava o juiz e o capitão do time adversário para as laterais do campo e, com a mão, apontava suas extremidades e explicava que, se a bola entrar no mato, ficará fora, e do outro lado, quando ela cair no barranco também ficará fora de jogo. O meio-campo é mais ou menos ali, e se existir uma falta perto da trave, contaremos as jardas do local da falta até o centro da trave e, se der menos que onze jardas, será pênalti.
Estas regras apenas eram válidas e aceitas pelos jogadores quando favoreciam o Falcão. A favor do adversário, sempre dava para diminuir a área ou afastar a linha de fundo, principalmente quando o juiz da partida era o famoso Bertão Perna Rica.
Atrás do gol de baixo, pois havia o gol de baixo e o gol de cima, embora o campo fosse plano, ficava um campinho onde a molecada jogava as peladas contra os moleques dos visitantes. Confesso que muitas vezes o jogo no campinho era melhor que o jogo dos times dos adultos.
Como a grande maioria dos campos de várzea, o do Falcão também não tinha grama, era e é coberto por uma camada fina de areia com muitos pedregulhos que funcionam como uma lixa. Cair é ralar na certa, e cada bola não dura mais que uma dúzia de partidas. As traves já foram de eucalipto, de caibro e de ferro. Foram arrancadas centenas de vezes e até já passaram uma rua no meio do campo, mas ele lá continua no alto do morro, hoje cercado de pequenas casas e de quintais abandonados. No mapa da cidade aparece como uma praça onde consta a rua bem no meio.
Aos domingos, continua sendo o palco principal do espetáculo mais popular do nosso país, o jogo de futebol de várzea e lá regado com bom samba, cerveja gelada e muita resenha.
Poderia usar muitas linhas para escrever sobre os campos de várzea de Itaquera, tais como do Leão do Morro, Itapemirim, Botafogo, Santana, Ferrolho, Palmeirinha, Chefe, Bola Veloz, Urca, Carmosina, Ita, Vila Brasil, Morganti e outros, apesar disso vou me restringir a mais um, que foi o do Democrático.
Hoje o campo já não existe, mas durante muitos anos eu podia te ver lá do Falcão do Morro. Ficava na baixada, perto do Rio Verde, onde fica atualmente instalado o Parque linear Córrego do Rio Verde.
Muitas vezes assistia às partidas sem sair de casa. Bastava subir no abacateiro, lá no último galho, de onde avistava todo o campo, menos o “córner” direito do gol de baixo, que era encoberto por um grande espinheiro do brejo.
O campo do Demo era um dos poucos, gramado, grande, bonito, lindo de se ver e ótimo para se jogar nos dias de sol, pois durante a época das chuvas era mais ideal para prática de polo aquático. Virava um grande lago de lama, literalmente um campo de várzea na Várzea do Rio Verde.
Nestas épocas de chuvas, eu e a molecada íamos durante a noite caçar rã, com lampião de carbureto e fisga, nas valas de drenagem do campo e muitas vezes nas poças que se formavam no meio do gramado.
Atrás do gol da frente, passava a estrada de Itaquera, e era comum que bolas chutadas, mais altas, caíssem no asfalto, sendo apanhadas de forma rápida pelos gandulas, pois não havia preocupação com carros que raramente passavam por lá.
Recordo bem o dia em que a bola caiu na carroceria de um caminhão, e o time todo saiu na estrada gritando para o motorista parar, pois era a única bola em campo. Ele não parou e foi necessário fazer uma vaquinha às pressas e enviar um garoto à loja do turco Camilo para comprar uma bola barata para o jogo ter sequência.
A exploração imobiliária, o crescimento não planejado do bairro e até mesmo as posses ilegais e invasões dos terrenos foram aos poucos acabando com os campos de futebol de várzea.
Hoje restam alguns poucos onde a comunidade e alguns abnegados, lutam contra tudo e contra todos para mantê-los ativos, preservando um espaço para suas crianças de todas as idades brincarem com certa segurança.
Um campo de futebol em uma comunidade é o espaço social que melhor pode ser usado para a inclusão e precisa do apoio de nossos governantes, principalmente dos vereadores, que lá sempre aparecem pedindo votos durante o momento eleitoral.
Agora gostaria que você leitor comenta-se aqui sobre o campo onde você, seu pai, irmãos ou filhos brincaram e jogaram bola, pretende seja em Itaquera ou em qualquer outra Várzea do nosso país.
Os campos da Várzea de Itaquera
Fonte: Fatopaulista
