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Circuito Itaquera
Itaquera

Na época dos grandes Circos

8 de Julho, 2025
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O homem de perna de pau, os anões, os palhaços, a banda e o que mais queríamos ver: os animais, capitaneados através do rei Leão e o gigante Elefante.

Era o Circo Stankowich que desfilava pelas ruas de Itaquera anunciando sua chegada para mais uma temporada.

O circo, como em todos os anos, era armado no campo do Elite, ali onde meu amigo Cebolinha derrubou o helicóptero com uma pedrada e hoje fica de forma permanente o Parque Mariza.

Na época, as grandes atrações do circo eram os animais selvagens, e circo que prestava tinha que ter leões, elefantes, ursos, tigres. O domador junto com o casal de trapezistas e o piloto da moto do globo da morte, eram os principais astros do espetáculo.

Pois bem, um dos canais de marketing do circo era a entrega nas escolas do bairro de um convite para cada criança assistir à primeira sessão. É claro que o convite era só para a criança, os pais teriam que pagar.

Naquele dia, recebemos na classe os convites e mal podíamos esperar o final da aula, pois seria certo cortar caminho no retorno para casa e passear mais um pouco para passar no circo e ver os animais.

Tocou o sino de final de aula e lá fomos nós em disparada até o campo do Elite. À distância, o cheiro inconfundível dos animais já denunciava a presença das feras naquele local. Os bichos estavam quietos. O elefante acorrentado por um dos pés a uma tora enterrada firmemente no gramado. O leão cochichava e mal abria os olhos, mostrando um grande cansaço através da viagem e o tédio de passar a vida naquela jaula fétida de não mais que 4 metros quadrados, já nem ligava para as moscas. O tigre andava (bem, virava-se) de um lado para outro, também dentro de sua diminuta jaula.

As crianças boquiabertas admiravam as feras, e ao meu lado estava o Tampinha, apelido do Elvélcio, pois era um garoto de estatura bem menor que a dos demais de sua idade, contudo maior que todos quando se tratava de aprontar alguma.

Fomos então, por final, visitar o animal de menor prestígio, o Urso Pardo, que estava bastante ativo em sua jaula, excitado através do agito da garotada.

Ao chegarmos perto da jaula do Urso (mais tarde vim saber que era um urso fêmea), o Tampinha, sem qualquer explicação ou motivo, me empurrou de encontro à jaula. O animal não teve questionamentos e agarrou meu braço, puxando-o contra as grades. Por sorte, o tratador estava ao lado e cutucou o animal com um gancho de servir alimento aos bichos.

Dois cortes superficiais e um furo profundo até o osso foram o resultado do ataque. Muito sangue e, para mim, o pior, meu agasalho novo rasgado, o que seria motivo para trazer uma surra de minha mãe.

Fomos direto para a farmácia do Seu Barreiros, que limpou bem os ferimentos e deu um ponto de latinha no furo maior. Depois de uma injeção antitetânica que doeu mais que a patada do urso, fui conduzido para casa através do administrador do circo.

Ganhamos uma permanente para assistir a todos os espetáculos de graça no camarote.

Tampinha continua lá em Itaquera e todo final de semana eu o vejo com seu carrinho de amolar facas ostentando o sorriso de um único dente, o canino esquerdo inferior, que me faz lembrar a apreendida de um urso.

Hoje, felizmente, já existe uma maior conscientização sobre a proteção dos animais e a prática de exibi-los em circo ou outro espetáculo fica legalmente proibida em vários países, inclusive no Brasil.

Já não vejo mais circos itinerantes e mambembes em caravanas, armando seus palcos nos terrenos baldios e nos campos de futebol da várzea, onde o palhaço e os outros artistas possam exibir sua arte para um público simples que, boquiaberto, assistirem ao maior espetáculo da Terra.

Curiosidades:

  • De origem romena, o Circo Stankowich preserva uma tradição de mais de um século na qual a arte circense vem transmitida de geração para geração.

No ano de 1850, Pedro Stankowich e sua família chegam na América do Sul, fugindo da primeira guerra que acontecia naquele momento na Europa.

Mais 155 anos de muito trabalho e dedicação ao ofício de circense. São 6 gerações empenhadas em manter viva a tradição do Circo Stankowich, a companhia mais antiga do Brasil. O amor através do circo é um mistério para quem nunca viveu a sensação mágica de subir num picadeiro, uma incógnita para quem pretende decifrar o olhar satisfeito de um artista quando faz seu número.

  • O Anão do circo em Itaquera nestas ocasiões era o Gilberto, um garoto portador de Nanismo nascido em Itaquera, mas que apenas atuava junto aos palhaços quando o circo estava no bairro, ele nunca quis viajar com o circo.

 

  • Dizem as más línguas de alguns fofoqueiros de Itaquera, sem que o fato tenha sido provado, que teve uma jovem Itaquerense muito linda de família tradicional, fugiu de casa para viajar com o circo na companhia do Galã do trapézio.

 

Se você tem alguma lembrança ou histórias do Circo, compartilhe nos comentários para tornar esta coluna mais interativa.

LEIA TAMBÉM: Educandário Divina Providência – Conhecido popularmente pelos moradores do bairro como COLÉGIO DAS FREIRAS. –

 

 

Na época dos grandes Circos

Fonte: Fatopaulista

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