No processo para desvendar crimes violentos e cheio de mistérios, a Polícia Civil de São Paulo utiliza várias táticas. Uma delas é o método de perfilamento criminal, muito comum no exterior, mas recente no Brasil. No maior estado do país, o Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) realizou um laboratório pioneiro que já vem mostrando resultados.
Criado no ano passado através da diretora do DHPP, Ivalda Aleixo, o Núcleo de Análise Comportamental e Criminal (NACC) é composto por psicólogos, perita, investigadores e delegadas. A equipe estuda cenas de episódios brutais e principalmente a conduta de suspeitos para dar apoio às linhas de investigação.
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Núcleo de Análise Comportamental e Criminal, da Polícia Civil
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Ivalda Aleixo, diretora do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP)
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Delegada Luciana Anjos Terriblli
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Equipe é multidisciplinar
Secretaria de Segurança Pública/Difusão 5 de 5
Sala para atendimento de crianças
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O que é perfilamento criminal
No dia a dia, a resolução dos crimes funciona a contar de uma tríade: autor, cena e vítima. Com uma análise mais comportamental, os especialistas tentam compreender cada detalhe dos envolvidos para elucidar os casos, como compartilha Ivalda “Entender a vítima é muito importante”, ressalta a diretora do DHPP.
O investigador e criminólogo Lucas Martins explica que a técnica de perfilamento surgiu existe aproxamadamente 50 anos e já tem algumas vertentes através do mundo. No núcleo do DHPP, eles observam o crime através de um olhar comportamental.
“Quando a gente pensa em crime, principalmente crimes contra a vida ou contra a dignidade sexual, todos os atores são pessoas, seres humanos”, avalia. “O objetivo do perfilamento criminal é tentar entender o comportamento do autor, e fazer a vitimologia, que é entender sobre a vítima, e entender o comportamento da cena de crime”, completa Martins.
Para ele, a técnica serve como um filtro investigativo para diminuir o número de suspeitos, além de ganhar tempo e qualidade nas apurações. Trata-se de um dossiê do conjunto de características e gostos de quem pode ser responsável por um incidente, inclusive com objetos confiscados, um tipo de diário de um serial killer.
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Coordenadora do time, a delegada Luciana Anjos Terriblli esclarece que, no núcleo, os analisados passam por testes psicológicos.
Para a concretização do núcleo, a equipe teve consultoria do psicólogo criminal Christian Costa. No começo, em fase de teste, o núcleo reabriu um caso que ocorreu existe 10 anos: o óbito de Victoria Natalini, estudante que desapareceu e foi identificada morta durante uma excursão escolar em uma fazenda em Itatiba, no interior do estado. “Eles se debruçaram nas 3.600 páginas do inquérito, e ficaram, me deram um perfil”, relembra Ivalda.
A técnica de perfilamento, que soma forças com a investigação tradicional, pode ser usada principalmente em suspeitos, mas também em testemunhas e até vítimas, inclusive em crianças. No laboratório do DHPP, existe uma sala pensada particularmente para entrevistas e procedimentos aplicados aos pequenos.
“Na divisão de homicídios [do DHPP] são várias equipes, e na divisão de proteção à pessoa, os crimes em que mais se utiliza o perfilamento são os de abuso contra crianças e adolescentes”, mostra a diretora.
Para o futuro, o objetivo que é o Núcleo de Análise Comportamental e Criminal seja cada dia mais ampliado e passe a utilizar, inclusive, mais ferramentas de auxílio tecnológico.
Casos desvendados com análise comportamental em SP
Com o suporte da análise comportamental, a equipe descartou, por exemplo, a possibilidade de latrocínio no caso da professora Fernanda Bonin. No mês de abril deste ano, ela foi identificada morta com indicações de estrangulamento, na zona sul. A vítima desapareceu depois de ser chamada através da ex-esposa, Fernanda Fazio, para ajudá-la com o carro, que supostamente havia quebrado na Avenida Jaguaré.
“Era roubar o carro ou era matá-la? E foi premeditado ou não foi? Eles vão, veem a cena do crime e vão pro local. Aí eles olham que não é um lugar ermo, embora longe e difícil de chegar. As pessoas passavam ali, qualquer um podia ver”, relembra Ivalda.
Depois, a investigação concluiu que se tratava de uma emboscada. A ex-mulher presenciou o momento em que a professora foi abatida por suspeitos que ela mesma contratou para o homicídio.
Também no mês de abril, depois de o óbito brutal da estudante Bruna Oliveira, baseado na análise comportamental, a equipe detalhou características do autor do crime: um viável predador sexual e morador da zona leste, através da facilidade de transitar na área. O corpo da mestranda da Universidade de São Paulo (USP) foi avistado em um estacionamento na Vila Carmosina depois que um homem a abordou perto da estação Corinthians-Itaquera.
No caso do empresário Adalberto Amarilio Junior, localizado morto no mês de junho dentro de um buraco de obra no Autódromo de Interlagos, a equipe do DHPP utilizou a análise comportamental em um suspeito, que passou, então, a ser testemunha. Ele era um amigo da vítima e havia sido a última pessoa a vê-la com vida.
“Não que ele fosse o autor, mas ele estava escondendo alguma coisa. Ele veio e, na entrevista, nós detectamos que realmente ele é uma pessoa extremamente tímida. Ele procurava se enturmar. Então, talvez aquele grupo de motos fosse uma forma. Força física, talvez, ele não tivesse para o tipo de morte ali e não teria motivos [para matar o amigo], entre outras coisas que nós descobrimos ali na psicologia”, diz Ivalda. “Falamos também com a esposa, para saber melhor quem era a vítima, e foi bem interessante.”
Subsequentemente, o DHPP constatou que os principais suspeitos de assassinarem Adalberto são cinco seguranças que trabalharam em Interlagos no dia do crime. A investigação apontou inclusive que eles apagaram dados dos próprios celulares.
Outro exemplo da atuação do laboratório de perfilamento criminal, de 2024, envolveu o óbito de dois homens homossexuais que conheceram um assassino em série através de App de relacionamento. “Um deles tinha um parceiro fixo, outro não. Nós analisamos que eles tinham sido asfixiados, um utilizando-se de um cadarço, outro, de uma guia dessas que prendem cachorro”, compartilha Luciana Anjos Terriblli.
“Quando começamos a verificar, pode-se dizer, essas coincidências entre os crimes, [percebemos] trata-se muito possivelmente da mesma pessoa. Durante essa investigação, foi-se criando um perfil sem inicialmente saber quem era o autor, mas sabendo as características dele, idade aproximada, o modus operandi”, acrescenta a delegada.
Fonte: Metropóles

