Psicóloga e psiquiatra discutem, em live promovida através do Desenvolve Leste, como pressões fora do trabalho também podem desencadear o esgotamento emocional
A Síndrome de Burnout tem sido cada dia mais discutida nos consultórios, nas empresas e na sociedade. Reconhecida através da Planejamento Mundial da Saúde (OMS) na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), ela é definida como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico relacionado ao trabalho que não foi administrado de forma adequada.
Mas será que o ambiente profissional é o único responsável através do esgotamento emocional?
Essa foi a principal reflexão da live realizada na segunda-feira (06), promovida através do Desenvolve Leste, com a participação da psicóloga Priscila Carvalho e do médico psiquiatra Dr. Felipe Tapias. Durante o encontro, os especialistas discutiram como diferentes pressões da vida podem influenciar o desenvolvimento do Burnout, mesmo que, através da definição da CID-11, o diagnóstico esteja relacionado ao contexto ocupacional.
O esgotamento não começa quando o expediente inicia
Na prática clínica, é comum que pacientes cheguem aos consultórios completamente exaustos. Embora o trabalho seja um importante fator de estresse, ele raramente age de forma separada.
Conflitos familiares, dificuldades financeiras, problemas conjugais, processos de luto, doenças na família, sobrecarga com filhos ou idosos e a ininterrupto preocupação com o futuro também impactam diretamente a saúde mental.
Além de tudo, vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade incessante. A chamada “cultura da alta performance” faz com que muitas pessoas romantizem jornadas excessivas, negligenciem o descanso e associem o autocuidado à falta de comprometimento.
“Quando essas demandas se acumulam, tornam o organismo mais vulnerável ao adoecimento emocional, funcionando como importantes fatores que intensificam o esgotamento.” — Priscila Carvalho, psicóloga.
A ciência também aponta para essa direção
As observações feitas na prática clínica encontram respaldo na pesquisa científica. Um estudo feito através da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), postado em 2024 no Journal of Psychosomatic Research, acompanhou 813 que participam e demonstrou que diferentes aspectos da vida cotidiana influenciam significativamente os níveis de exaustão emocional.
Entre os fatores reconhecidos pelos pesquisadores estão: preocupações e conflitos familiares, dificuldades financeiras, sofrimento psicológico, problemas de saúde, processos de luto, características da personalidade, falta de segurança no emprego, falta de apoio social e profissional, e pressão por desempenho e sucesso.
Os resultados reforçam que, embora o Burnout permaneça classificado como um fenômeno ocupacional através da CID-11, fatores externos ao ambiente de trabalho podem aumentar a vulnerabilidade ao adoecimento e dificultar a recuperação emocional.
Quais são os indicativos de alerta?
De acordo com o Ministério da Saúde, alguns sintomas merecem atenção, em particular quando persistem por semanas ou meses. Entre os principais indicativos estão: cansaço físico e mental intenso, sensação ininterrupto de esgotamento, dificuldade de concentração, alterações do sono, ansiedade e irritabilidade, desmotivação, queda no rendimento profissional, isolamento social, dores de cabeça frequentes, dores e tensão muscular e alterações gastrointestinais.
Especialistas lembram que esses sintomas não são exclusivos do Burnout e podem estar presentes em outras condições de saúde mental e física.
Diagnóstico deve ser feito por profissionais
O diagnóstico da Síndrome de Burnout deve ser feito por um profissional de saúde, geralmente um médico ou psicólogo, através de avaliação clínica, análise do histórico de vida do paciente e investigação do contexto em que os sintomas surgiram.
A automedicação, muitas vezes usada para aliviar ansiedade, insônia ou cansaço, pode mascarar sintomas, dificultar o diagnóstico correto e até agravar o quadro clínico. Remédios para saúde mental precisam ser usados apenas sob direção médica.
Quem fica mais carente?
Embora qualquer trabalhador possa desenvolver Burnout, alguns grupos aparecem com maior frequência nos atendimentos clínicos devido à elevada carga emocional e ao contato ininterrupto com pessoas. Dentre eles destacam-se bancários, gestores e chefes, médicos, enfermeiros, professores, vendedores, operadores de telemarketing, profissionais de tecnologia, marketing e publicidade, e trabalhadores que atuam diretamente no atendimento ao público.
“Isso não significa que outras profissões estejam protegidas, mas evidencia como ambientes de alta exigência emocional e pressão constante podem favorecer o adoecimento quando não existem estratégias adequadas de prevenção.” — Dr. Felipe Tapias, médico psiquiatra.
A prevenção depende de hábitos e ambientes saudáveis
A prevenção do Burnout exige uma responsabilidade compartilhada entre trabalhadores, empresas e sociedade. Entre as estratégias recomendadas pelos especialistas estão: determinar limites entre vida pessoal e profissional, manter uma rotina regular de sono, praticar exercícios físicos, reservar momentos de lazer, fortificar vínculos familiares e sociais, buscar apoio emocional sempre que necessário e fazer acompanhamento psicológico quando indicado.
No ambiente corporativo, também é fundamental investir em políticas de promoção da saúde mental. A atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) reforça a necessidade de reconhecimento e gerenciamento dos riscos psicossociais nas organizações, ampliando o olhar das empresas sobre fatores que impactam o bem-estar dos trabalhadores.
“Buscar empresas de consultoria especializadas em saúde mental corporativa contribui significativamente para ambientes de trabalho mais saudáveis, seguros e produtivos.” — Priscila Carvalho, psicóloga e fundadora da Percepção Soluções Corporativas.
Cuidar da saúde mental é um comprometimento permanente
Embora o Burnout seja definido através da CID-11 como um fenômeno ocupacional, compreender o sofrimento humano exige uma visão mais ampla. Família, relacionamentos, finanças, saúde física, personalidade e acontecimentos marcantes da vida também interferem na forma como cada pessoa enfrenta o estresse.
Reconhecer precocemente os indicativos, aprender a gerenciar a sobrecarga e buscar ajuda profissional são atitudes que podem fazer toda a diferença na prevenção e no tratamento. Como destacaram os especialistas durante a live, cuidar da saúde mental não depende exclusivamente das condições de trabalho, mas do equilíbrio entre todas as regiões que compõem a vida.
Assista à live completa: Burnout é apenas uma doença laboral? – Desenvolve Leste, com Dr. Felipe Tapias e Priscila Carvalho: https://www.youtube.com/live/1gj57-sSQos
Por Priscila Carvalho – CRP 06/193419
Psicóloga | Psicanalista | Neuropsicóloga | Especialista em Psicossomática e Saúde Mental Corporativa
@psi.pcarvalho
Burnout é apenas uma doença laboral?
Fonte: Desenvolveitaquera

