Desde 2016, a Casa Florescer vem se consolidando como referência na proteção e na promoção de direitos de mulheres trans e travestis em situação de vulnerabilidade social. O Centro de Acolhimento Especial (CAE) reúne acolhimento, moradia provisória e acompanhamento técnico para reconstrução de trajetórias de vida marcadas por abandono, violências e exclusão.
No decurso de sua atuação, nas unidades I e II, já foram feitos 1.684 atendimentos. Desse total, 286 pessoas – por volta de uma em cada seis – conquistaram a chamada “saída qualificada”, ou seja, foram capazes de alcançar autonomia depois de o acompanhamento na rede socioassistencial. Outras 137 pessoas (9%) foram inseridas no mercado de trabalho, resultado direto do atendimento individualizado e das articulações com empresas e organizações da sociedade civil.
Pioneira no Brasil, a Casa Florescer integra a rede da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), em cooperação com a OSC CROPH (Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana). Com capacidade para acolher até 30 mulheres trans e travestis, o serviço proporciona moradia provisória, alimentação, acompanhamento psicológico e social, além de acesso articulado a políticas públicas nas regiões de saúde, educação, trabalho e moradia.
Localizada no Bom Retiro, área central da capital, a Casa conta com equipe multidisciplinar estabelecida por assistentes sociais, psicólogo, orientadores socioeducativos, agentes operacionais e equipe de cozinha. A estrutura reúne dormitórios coletivos, cozinha, refeitório, sala de convivência, lavanderia e quadra poliesportiva, preservando condições dignas de acolhimento e convivência.
Grande parte das acolhidas chega à Casa depois de vivências de expulsão familiar, evasão escolar, violências e discriminação, muitas vezes resultando na permanência nas ruas. Para a psicóloga Patricia Assis, que age no serviço, esse processo de exclusão impede o desenvolvimento pleno e o sentimento de pertencimento a grupos sociais, importantes para qualquer pessoa. A falta de acesso à saúde se soma a esse cenário e compõe um tripé de vulnerabilidades confrontado de forma recorrente por mulheres trans e travestis.
É neste contexto que o Plano Individual de Atendimento (PIA) se torna a principal ferramenta de trabalho da Casa Florescer. Através dele, são construídas estratégias personalizadas, articulando a rede de proteção, amplificando vínculos e apoiando a construção de projetos de vida possíveis. Os resultados mostram o impacto dessa metodologia: desde 2016, 95% das pessoas acolhidas passaram a entrar a rede de saúde, 80% regularizaram documentação, 70% retomaram os estudos e 45% realizaram retificação de nome e gênero em seus documentos.
A transformação promovida através do serviço também impacta o cotidiano das equipes. Segundo Patricia, o acompanhamento das mulheres trans ressignifica práticas profissionais e é fonte de aprendizado e empoderamento. Hoje, o perfil das acolhidas é diverso em idade e origem, com presença marcante de mulheres vindas das regiões Norte e Nordeste, que chegam a São Paulo em busca de oportunidades, segurança e qualidade de vida.
A Casa Florescer integra uma rede mais ampla de acolhimento especializado mantida através da Prefeitura de São Paulo, que inclui o Florescer II, na Zona Norte, e a Casa de Acolhida Casarão Brasil, na Zona Sul. Em uma cidade reconhecida internacionalmente pelas políticas de diversidade e inclusão, e que abriga a maior rede de apoio à população LGBT+ do país, o equipamento se destaca como espaço de proteção, cuidado e reconstrução de narrativas.
Na prática, isso se traduz em histórias como a de Jamilly Piton, 34 anos, que fica na etapa final de sua saída habilitada, aguardando unicamente a viabilização de uma moradia para aluguel. Depois de quase dois anos de acolhimento, ela define a Casa Florescer como um lugar de recomeço, onde foi viável “nascer de novo” e se reconhecer como uma nova pessoa a cada dia.
Casa Florescer transforma
Fonte: Desenvolveitaquera

