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Brasil

Mototáxi por aplicativos é tragédia anunciada, diz pesquisador do Ipea

10 de Agosto, 2025
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Mototáxi por aplicativos é tragédia anunciada, diz pesquisador do Ipea
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A disseminação dos serviços de transporte de passageiros por motociclistas de aplicativos é uma tragédia anunciada em um trânsito já agendado através da alta mortalidade em colisões e quedas de motos, avalia o técnico de pesquisa e planejamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Erivelton Guedes, em entrevista à Agência Brasil. Doutor em engenharia de transporte, Guedes foi um dos responsáveis através da inclusão das mortes no trânsito no Atlas da Violência 2025.

“Qualquer regulamentação vai acabar incentivando e, talvez, dando a falsa impressão de que, seguindo aquele monte de regras, vai dar certo”, diz. “É uma tragédia anunciada. Eu vejo com muito pessimismo isso evoluir”.

A quarta reportagem da série Rota Perigosa: brasileiros se arriscam em motos por renda e mobilidade discute a demanda pelos serviços de transporte de passageiros em corridas de motos contratadas em aplicativos, como o Uber Moto e o 99 Moto, e os riscos envolvidos nessas viagens.

Lançado em 2020, o Uber Moto já transportou em torno de 20 milhões de brasileiros ao menos uma vez, o que significa quase 10% dos cidadãos. Essas viagens foram feitas por 800 mil motociclistas. Já o 99Moto foi lançado no mês de janeiro de 2022, com expansão gradual nos meses seguintes. Atualmente, o serviço fica presente em mais de 3,3 mil cidades e já realizou 1 bilhão de viagens.

Motociclistas de aplicativos de transporte de passageiros transitam pelas ruas do centro do Rio – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Cada hora mais mortes

Produzido através do Ipea e através do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Atlas da Violência 2025 alertou que, enquanto os homicídios estão em queda, o número de vítimas de colisões, atropelamentos e outros sinistros de trânsito vem crescendo desde 2020.

Em 2019, houve 31.945 vítimas do trânsito no Brasil, número que aumentou nos anos seguintes até chegar a 34.881 em 2023. Neste mesmo momento, o número de vítimas de sinistros com motos subiu de 11.182 para 13.477.

O fator de maior peso nesta alta é o número de ocorrências envolvendo motos, que já respondiam por uma em cada três mortes no trânsito brasileiro em 2023, último ano com dados disponíveis no Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. De acordo com o atlas, “o usuário da motocicleta é, atualmente, a maior vítima dos sinistros de trânsito no Brasil”. Guedes acredita que, no ano que vem, quando o atlas incluir os dados de 2024, a disseminação dos serviços de App contribuirá para um aumento ainda maior nos óbitos.

Técnico de pesquisa e planejamento do Ipea Erivelton Guedes foi um dos responsáveis através da inclusão das mortes no trânsito no Atlas da Violência 2025 – Foto: Helio Montferre/Ipea

“Na moto, o carona é muito mais exposto ao perigo do que o próprio motociclista. Principalmente nesse mundo de viagens por aplicativo, o carona precisa saber andar de moto”, alerta. “Além disso, o motociclista, bem ou mal, está enxergando o que está acontecendo, e o passageiro está ali passivamente. Então, para ele, uma ocorrência é algo que surge naquele instante.”

Outro momento que preocupa o especialista em engenharia de trânsito é a inadequação da vestimenta de pilotos e passageiros que se vê nas ruas. 

“Idealmente, os dois, condutor e passageiro da moto, deveriam estar com roupas adequadas: botas, calças de couro, jaqueta de couro e capacete. Na prática, a gente não vê isso nos condutores e muito menos no passageiro, que, muitas vezes, está de sandália, roupa curta e com o celular na mão em vez de estar segurando no piloto.”

Apesar dos problemas, Guedes avalia que dificilmente esses serviços serão suspensos. Na visão dele, além da pressão econômica das próprias empresas que os oferecem, existe a demanda através do trabalho e renda gerados por essa atividade.

“A gente até acha que é uma luta perdida, e que a moto por aplicativo vai vencer, porque existe uma pressão econômica, uma pressão de vários lados, incluindo o do próprio condutor. Ou ele se acha um empreendedor ou ele precisa almoçar e não tem outra alternativa. Então, ele escolhe arriscar a vida e almoçar. A gente também tem que entender o lado dele, e o poder público precisa oferecer alternativas. Enquanto não houver alternativa de emprego mais saudável, essa pressão pela moto por aplicativo vai continuar ganhando.”

Letalidade 17 x maior

O presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Antonio Meira Júnior, acredita que é preciso fazer um estudo do impacto social e na saúde coletiva que esses serviços trazem. E isso deve considerar a vulnerabilidade a que os passageiros de motos estão expostos.

“A vulnerabilidade dos motociclistas é de tal nível que a sua letalidade, ou seja, a probabilidade de morte em acidente, chega a ser 17 vezes maior do que comparado com ocupantes de um automóvel”, afirma ele. “Se me perguntarem se eu seria a favor de utilizar a moto como meio de transporte [de passageiros], nós seremos contrários pelo fato de sabermos os riscos e a tendência de ter um maior número de pessoas expostas a esses riscos. Se mais pessoas estiverem transportando outras pessoas na moto, mais pessoas também estarão expostas a esse risco. A probabilidade de ocorrerem mais acidentes com lesões graves e mortes é maior.”

Meira Júnior detalha que motociclistas e caronas não têm qualquer proteção em caso de impacto, que é diretamente absorvido por seus corpos. As motos circulam entre veículos de maior massa e resistência, frequentemente em velocidade diferente, no meio das faixas, o que também dificulta que sejam vistas. Além do que, não contam com equipamentos de segurança que evitem que os passageiros sejam lançados em caso de colisão. Somados a isso, imperfeições no asfalto, pedras, areia, óleo e outros elementos que seriam pequenos problemas para um automóvel podem provocar incidentes graves com motos.

Presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Antonio Meira Júnior diz que impacto social de acidentes com motos é “imensurável” – Foto: CFM/Difusão

O resultado de toda essa desproteção são ferimentos severas e politraumas, que, quando não matam, tranquilamente causam internação por tempo prolongado e provocam deficiências ou sequelas permanentes. 

“O impacto social é imensurável. A grande maioria das pessoas ficam com sequelas que, muitas vezes, deixam a pessoa incapaz para o trabalho, precisando de fisioterapia e tratamento pós-hospitalar, ou até a vida toda dependendo de outras pessoas e causando uma complexa mudança de estilo de vida de toda a família.”

Queda simples, ferimento complicada

Um exemplo da vulnerabilidade descrita através do presidente da Abramet foi vivida através da assistente social Erika Rogatti, de 35 anos. Moradora da zona norte do Rio de Janeiro, ela já havia se acostumado a usar serviços de transporte por App em motos para deslocamentos de seu dia a dia, como ir e voltar do trabalho. Mais barato que um carro de App ou táxi, o serviço também dispensava as baldeações e caminhadas entre o ônibus e o metrô, que não têm integração tarifária na capital carioca.

Em um sábado à noite do último mês de abril, contudo, a caminho de uma apresentação, a corrida de App acabou sendo interrompida por uma queda. Quando estava freando em um sinal vermelho, o condutor e ela não foram capazes de se equilibrar entre os carros, e a moto caiu sobre sua perna esquerda, que foi imprensada através do veículo. Mesmo em um incidente em baixa velocidade, que poderia parecer simples, a exibição característica da moto assegurou ferimentos dolorosas, afastamento do trabalho e repercussões em outras questões de saúde.

Erika Rogatti mostra ferimentos e pé engessado depois de acidente com moto – Foto: Erika Rogatti/Arquivo pessoal

“A nossa sorte foi que o sinal estava fechado, e os carros estavam parando, porque eu caí sentada na moto, no meio dos carros. Foi o suficiente para eu fissurar o meu dedão [do pé esquerdo] e ficar com vários hematomas. Na hora, ficou bem ralado, bem feio e percebi que eu estava com muita dor nesse pé, em que eu já tenho artrose.”

Erika não precisou ser internada, mas ficou imobilizada em casa por mais de 20 dias e, quatro meses depois de a queda, ainda faz fisioterapia e não se recuperou das dores e do inchaço causados pelas ferimentos. As dores da artrose também pioraram. Mesmo assim, Érika não abandonou o serviço de transporte por App e já realizou novas corridas.

Falta de opção

Para o professor do Programa de Engenharia de Transportes do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) Glaydston Ribeiro, o crescimento do uso de motos fica profundamente ligado ao modo como os municípios brasileiras foram estruturadas, priorizando o transporte individual motorizado e negligenciando o transporte público de qualidade, particularmente nas periferias.

“Essa urbanização desigual faz com que a população mais vulnerável busque soluções individuais de mobilidade, e aí surge, naturalmente, a motocicleta, que passa a ser o veículo possível, entre aspas, para o acesso a trabalho, educação e serviços.”

Essa precariedade nos transportes públicos, descreve Ribeiro, com problemas como baixa oferta, horários reduzidos e falta integração tarifária, torna o uso de motos uma solução necessária, ainda que seja arriscada, principalmente nas periferias.

Motociclistas de aplicativos de transporte de passageiros transitam pelas ruas do centro do Rio – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“A popularização dos aplicativos de entrega e mototáxi ampliou essa tendência, levando o usuário a se expor a um sistema de mobilidade informal, sem regulamentação e proteção social devida.”

Apesar disso, ele julga que a proibição do serviço tenderia a penalizar os mais pobres, que recorrem à moto por necessidade, e não por escolha. “É necessário pensar em alternativas que ampliem as opções de mobilidade e não apenas punir quem já fica em situação vulnerável.

Uber Moto

Procurada através da Agência Brasil, a Uber afirmou que sua prioridade é a segurança das viagens e que conta com a participação de engenheiros e especialistas brasileiros no desenvolvimento de seus recursos de segurança.

A plataforma cita medidas como selfies para verificar a identidade do motociclista, uso do capacete e o alerta de velocidade, que monitora o respeito aos limites das vias e envia um conteúdo educacional caso o motociclista os tenha excedido. Motociclistas e passageiros também contam com seguro: morte acidental: R$ 100 mil; invalidez permanente total ou parcial por acidente: até R$ 100 mil, dependendo do grau de perda ou redução funcional do membro afetado; despesas médicas hospitalares e odontológicas: até R$ 15 mil de reembolso.

App do Uber para motos – Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

“O desrespeito às regras de trânsito configura violação ao Código da Comunidade e aos Termos e Condições exigidos tanto de parceiros quanto de usuários e pode levar a desativação da conta”, afirma.

Para fazer o cadastro, a Uber pede que os motociclistas tenham mais de 19 anos, CNH definitiva na categoria A (para veículos motorizados de duas ou três rodas) e se enquadrem nos requisitos da legislação federal em vigor. 

A empresa também cita contrato com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) para confirmar as informações cadastrais dos parceiros e afirma que todos os cadastrados passam por uma checagem periódica de apontamentos criminais, desde a primeira viagem.

A Uber apresenta dados de pesquisa realizada com seu apoio através do Instituto Cordial, em cooperação com a Abramet, que aponta que deslocamentos diários simples, em que não existe geração de renda, concentram pouco mais que a metade (quase três em cada cinco) dos sinistros envolvendo moto. Além do que, segundo a Uber, 19% dos entrevistados haviam consumido álcool ou outras drogas antes do sinistro e não estavam envolvidos com atividade em apps.

99moto

Também em resposta à Agência Brasil, a 99 informou que investe em conscientização de forma continuada e que 0,0003% das mais de 1 bilhão de viagens realizadas tiveram algum acidente de trânsito. “Todas as viagens intermediadas pela 99 também contam com seguro de acidentes pessoais, tanto para passageiros como para motociclistas parceiros”, afirma.

App Mototáxi 99 – Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A plataforma declara que disponibiliza orientações sobre como caminhar na garupa da moto com segurança, incluindo seguir as instruções do condutor, manter os pés na pedaleira mesmo com a moto parada em semáforos, impedir calçados que possam sair tranquilamente do pé e não usar roupas longas como vestidos e calças largas. A empresa também orienta que passageiros que tenham consumido álcool ou substâncias que alterem o equilíbrio não realizem corridas de 99Moto e optem pelas categorias com carros.

Os motociclistas, por sua vez, são orientados a sempre conferir se o passageiro tem experiência com transporte de moto e, quando necessário, auxiliá-lo a afivelar o capacete corretamente e orientar sobre como subir na motocicleta e se apoiar adequadamente para impedir desequilíbrios durante a corrida.

Em sua resposta, a 99 contesta análises que atribuem aos aplicativos a responsabilidade por eventuais aumentos de acidentes de trânsito argumentando, entre outros pontos, que os 800 mil motociclistas cadastrados na 99, iFood e Uber respondem por unicamente 2,3% da frota nacional de 34,2 milhões de motos.

“A taxa de sinistros fatais é quatro vezes menor na 99Moto em comparação às motocicletas como um todo, enquanto o número de sinistros fatais é de menos de 1 a cada milhão de viagens”, diz a plataforma.

FONTE/CRÉDITOS: Vinícius Lisboa – Repórter da Agência Brasil

Fonte: São Paulo de Fato

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