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Os filhos estão sendo substituídos por pets?

22 de Julho, 2025
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Os filhos estão sendo substituídos por pets?
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Por Juliana Sato

Essa pergunta parece simples, mas carrega um peso simbólico enorme. Aparece nas manchetes, entrevistas, mesas de jantar e discussões acaloradas em redes sociais, quase sempre com um tom acusatório, como se amar um pet fosse sinal de desvio, carência ou fuga de responsabilidade.

Mas será mesmo que essa é a leitura mais justa? A pergunta parte de um lugar que já define o afeto como uma escolha única, com formato padrão e hierarquias rígidas. Filhos humanos no alto. Relações “verdadeiras” de um lado, e vínculos “substitutos” de outro. Como se o valor do afeto dependesse da espécie.

Só que os afetos não funcionam assim… A relação com o pet não fica necessariamente ocupando o lugar de um filho. Ela ocupa o lugar que a própria pessoa construiu, e que faz sentido dentro do seu contexto de vida. Às vezes, esse vínculo é o mais estável, mais previsível e mais acessível que ela tem. E isso não a diminui. Através do contrário: mostra o quanto ela é capaz de amar, cuidar e se comprometer, ainda que o outro tenha quatro patas.

O que estamos vendo é uma reorganização das prioridades. Em um mundo acelerado, caro, polarizado e exaustivo, muita gente tem repensado o que é “família”, o que é “legado”, o que é “cuidado”. Isso não é sintoma. É um movimento social. E, como todo movimento social, tem causas, nem sempre visíveis à primeira vista.

Falar que “as pessoas agora preferem ter um cachorro a ter filhos” pode parecer provocador, mas é raso. O que demanda ser analisado é o que fica por trás dessa preferência: o custo da parentalidade, a sobrecarga das mulheres, a precariedade da rede de apoio, o medo de repetir traumas familiares, a busca por autonomia, a recusa em seguir um modelo de vida pronto, que muitas vezes adoece mais do que faz.

Isso sem contar que a lógica da substituição é equivocada. Porque ninguém substitui ninguém. Os vínculos que formamos não são peças de reposição. São construções afetivas que emergem de escolhas, valores, vivências e necessidades, conscientes ou não.

Sim, existe excessos. Em alguns casos, o animal é hiperprotegido, humanizado ao extremo, instrumentalizado como válvula emocional. Mas esses casos não poderão ser generalizados. Nem usados como argumento para desqualificar uma realidade cada dia mais presente: os pets fazem parte da vida afetiva e simbólica das pessoas. E isso merece respeito.

Mais do que criticar essa mudança, talvez devêssemos perguntar: o que esse fenômeno fica revelando sobre os vínculos humanos? O que ele nos ensina sobre presença, cuidado e responsabilidade? E, principalmente: por que ainda incomoda tanto ver alguém construindo uma vida significativa fora dos moldes tradicionais?

A verdade é que não existe um único jeito certo de viver o afeto. Alguns terão filhos. Outros terão pets. Alguns terão os dois. Existe quem opte por nenhum. E fica tudo bem. Não se trata de substituir. Trata-se de escolher com quem você deseja dividir sua presença, seu tempo e seu afeto, sem que isso precise ser validado por padrões velhos ou julgamentos externos.

Talvez, no fundo, essa pergunta diga menos sobre quem tem pet… e mais sobre quem ainda não consegue aceitar que o mundo fica mudando. E que amar também mudou de forma.

Juliana Sato é psicóloga que tem especialização em luto pet, certificada através da Association for Pet Lost and Bereavement, dos Estados Unidos.

Os filhos estão sendo substituídos por pets?

Fonte: Desenvolveitaquera

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