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Pré-carnaval de dois meses pode aumentar faturamento de setores

13 de Janeiro, 2025
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Enquanto muitos trabalhadores esperam o final do ano para ter renda extra, com o pagamento do 13º salário, o vendedor ambulante André Pacheco aproveita o começo de 2025 para conseguir um dinheirinho a mais, impulsionado através da chegada do carnaval. Existe 20 anos ele trabalha com a venda de bebidas na Lapa, área boêmia no Centro do Rio de Janeiro.

André espera um faturamento maior por um motivo específico: este ano o carnaval será no mês de março (começa no sábado, 1º), o que significa dizer que o pré-carnaval é mais longo.

“A gente vai ter janeiro e fevereiro para se preparar para o carnaval. Para mim é como se tivesse já dando uma alavancada de no mínimo uns 50% nas vendas”, explicou à Agência Brasil.

Desde a virada do ano, ele tem percebido que o município fica cheia de turistas, brasileiros e estrangeiros, o que contribui para o otimismo em relação às vendas. Para o camelô, os blocos de carnaval que já estão animando o Rio desde o primeiro final de semana do ano estão diretamente relacionados com a expectativa – mesmo que não sejam localizados na área da Lapa.

“A gente fala que a Lapa, a nossa área, é uma dispersão mesmo de blocos. As pessoas vindas de blocos da Primeiro de Março [no Centro], do Flamengo, da Glória [bairros da zona sul], enfim, a galera acaba indo para a Lapa, todo mundo vai para lá, e a festa continua lá”.

A vendedora ambulante Maria do Carmo, conhecida como Maria dos Camelôs, fundadora e coordenadora-geral do Movimento Unido dos Camelôs (Muca), reforça a necessidade do carnaval para a categoria.

“O carnaval é o momento em que a gente tira o nosso 13º salário. Momento em que as pessoas estão na cidade, na rua para gastar dinheiro. Para a gente é muito importante”, disse à Agência Brasil a ambulante que vende bebidas em blocos no tradicional bairro de Santa Teresa, região central do Rio de Janeiro.

“Carnaval precisaria ser duas vezes no ano”, brinca ela, que aponta o pré-carnaval como mais oportunidade para encontrar blocos nas ruas e, consequentemente, vender mais.

Este ano, a prefeitura do Rio de Janeiro vai cadastrar 15 mil vendedores autônomos para trabalhar nos blocos de rua, 5 mil a mais que em 2024.

Expediente esticado

O bar e restaurante Super Bar, que fica na Cinelândia, centro do Rio, outro ponto de dispersão de blocos, foi surpreendido através do movimento de foliões no domingo passado (5).

“Já começou o pré-carnaval este fim de semana. Já bombou aqui”, contou à Agência Brasil o gerente Flávio Alexandre Filho. O estabelecimento estava planejado para funcionar só no expediente diurno, mas teve que mudar os planos. “Teve que dar uma esticada até as 11 horas da noite”, relata.

O gerente explicou que não chega a contratar mais empregados, mas altera os horários das escalas, de forma a ampliar a capacidade de atendimento. A exceção é a equipe de segurança, que conta com reforço numérico.

Nas contas de Flávio, o faturamento deve crescer 30% nos dias de pré-carnaval. Esse aumento compensa outro efeito do carnaval tardio. Ele observa que o restaurante fica em uma área que concentra muitos empregados públicos. “O ano só começa mesmo depois do carnaval”, constata ele, se referindo à diminuição de movimento nos dias úteis de janeiro e fevereiro.

Comportamentos distintos

O presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), Fernando Blower, observa que mesmo não tendo dados que suportem a hipótese, tende a acreditar que o pré-carnaval mais longo pode ser algo positivo para o setor. “Isso porque dá uma espécie de alongada nesse sentimento de verão, férias e viagem”, avalia.

No entanto, ele aponta que nem todos os estabelecimentos de alimentação fora do lar vivenciam o momento da mesma forma. 

“Os bares e locais com características mais informais e descontraídos, além daqueles em locais de perfil notadamente turísticos, a exemplo da zona sul e Lapa, apresentam maior possibilidade de crescimento no período”, assinala. 

“Já nos perfis de negócio com foco mais executivo e afastados das áreas de maior concentração turística, o inverso acontece”, completa.

O presidente do SindRio lembra que, conforme com dados do sindicato e do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (Ifec-RJ), o carnaval é historicamente um momento com pequena queda no faturamento do setor de bares e restaurantes. 

Em 2024, o faturamento ficou em R$ 1,394 bilhões. Foi o primeiro ano a superar a marca de pouco mais de R$ 1,3 bilhão alcançada em 2019 e 2020, antes da pandemia de covid-19.

“Com o aumento crescente do turismo, incluindo o recorde de entrada de turistas estrangeiros no Brasil em 2024, estamos esperançosos de seguir em um movimento de crescimento”, estima.

Vocação regional

O presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, julga que o fato de o carnaval ser só no mês de março gera impactos variados através do Brasil, que dependem das características econômicas e turísticas de cada área.

“Em cidades como Salvador e Florianópolis, o carnaval marca o fim da alta temporada de verão. Por isso, quando acontece mais tarde, ajuda a prolongar o turismo e impulsionar as vendas em bares e restaurantes”, aponta.

“Já em locais onde a atividade turística é forte ao longo de todo o verão, como no Rio de Janeiro, a data do carnaval tem pouca influência, e o setor mantém sua estabilidade”, julga.

Hotéis

Enquanto ambulantes e bares se aproveitam da presença de foliões nos blocos do pré-carnaval estendido, o setor de hotelaria enxerga outra vantagem de a festa oficial estar marcada para março.

Conforme Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO – o sindicato de donos de hospedagem da cidade do Rio – a data mais distante faz com que turistas do país tenham tempo de se organizar financeiramente e “abre a possibilidade de que quem veio participar da festa da virada queira voltar para a folia momesca”.

Segundo ele, o Réveillon funciona como um “cartão de boas-vindas” para que os visitantes conheçam melhor o município e se interessem em fazer parte de outra grande festa. “O carnaval em março estica a alta temporada no Rio, constituída pelo verão carioca”, define.

Além de tudo, continua Lopes, a desvalorização do real, em torno de 25% em um ano, tornou o Rio ainda mais atraente para os turistas internacionais. A moeda brasileira desvalorizada é sinônimo de preços mais baratos para quem vem de fora do país.

Calendário oficial

A terça-feira de carnaval este ano será em 4 de março. A data varia, sendo relacionada diretamente à realização da Páscoa, que continua o calendário da igreja católica.

Baseado em relatos bíblicos e históricos, os católicos acreditam que a ressurreição de Cristo ocorreu em um dia de lua cheia, perto do equinócio da primavera (o dia e a noite têm exatamente a mesma duração e marca a chegada da estação) no Hemisfério Norte.

Por esta razão, no ano 325, a Igreja Católica realizou o Concílio de Niceia e decidiu que a Páscoa seria celebrada sempre no domingo seguinte ao surgimento da primeira lua cheia depois de a chegada da primavera no Hemisfério Norte. Desse jeito, a Páscoa de 2025 será em 20 de abril.

Já o carnaval termina religiosamente 40 dias antes do domingo de Ramos, o domingo que antecede a Páscoa. Da quarta-feira de cinzas até o domingo de Páscoa são sempre 46 dias.

Em 2024, o carnaval iniciou em 10 de fevereiro. Em 2026, será no sábado 14 de fevereiro. Passando 2025, o ano que vem que terá carnaval no mês de março será 2030, quando a terça-feira cairá em um dia 5.

O Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) preparou uma tabela com todas as datas religiosas móveis, o que inclui o Corpus Christi – de 1951 a 2078.

Lei para fixar data

Apesar de o carnaval ser uma data móvel diretamente ligada à Páscoa, já houve tentativas de aprovar lei para fixar o carnaval na primeira terça-feira de março.

A Câmara dos Deputados recebeu os Projetos de Lei (PL) 2846/2008 e 1503/2011, dos então deputados federais Wellington Fagundes e Stepan Nercessian, consecutivamente.

Na justificativa, ambos dizem que a mudança de data possibilitaria “melhoria das condições profissionais de todos os setores envolvidos na organização do evento”.

O projeto do hoje senador Fagundes acrescentava que “a fixação da data tem, ainda, a vantagem de oferecer aos turistas – brasileiros e estrangeiros – a oportunidade de se programarem antecipadamente para a grande festa”.

O texto de Nercessian defendia que “quando a festa cai na primeira quinzena de fevereiro, é um desastre econômico para o setor de turismo”.

O PL de Wellington Fagundes foi arquivado em 2009, pouco mais de um ano depois de ser apresentado. O de Stepan Nercessian iniciou a tramitar em 2011 e foi arquivado em 2015.

FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura – Repórter da Agência Brasil

Fonte: São Paulo de Fato

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