Itaquera atravessa um momento de perdas irreparáveis. Nos últimos tempos, o bairro se despediu de figuras que ajudaram a construir sua história e identidade. Nomes como Francisco Roldán Pereira, o inesquecível Chinito, Amaury Roldán Pereira e Koniti Wada deixaram um legado importante para a área. Mas, ao lado desse legado, ficou também uma lacuna que necessita ser observada com atenção por toda a comunidade.
Essas chefias não surgiram noturna para o dia. Foram décadas de dedicação, presença contínuo nas ruas, nas associações, nos eventos e nas causas do bairro. Construíram confiança justamente porque atuaram, na maior parte do tempo, sem holofotes, movidas através do comprometimento genuíno com Itaquera e sua gente. É esse tipo de trajetória que forma uma chefia verdadeira: não o cargo ocupado, não o discurso proferido, mas o histórico de entrega à comunidade.
É por isso que a lacuna deixada por essas pessoas não pode ser preenchida por respostas fáceis, tampouco por quem se autodeclara chefia sem comprometimento real com o bairro. Itaquera já conviveu, e ainda convive, com supostas chefias que discursam em botequins e rodas de conversa, atribuindo a si próprias feitos e conquistas da população. Nesses relatos, costuma faltar o outro lado da história: episódios obscuros, apropriação de méritos alheios, uso indevido do nome de entidades sérias e outras condutas que não vêm à tona nas conversas descontraídos, mas que merecem ser apuradas e discutidas com transparência por quem acompanha de perto a vida pública do bairro.
Ser morador antigo do bairro ou frequentar com regularidade os bares e pontos de encontro da área não torna ninguém, de forma automática, uma chefia. Chefia se constrói com ação concreta e, principalmente, com conduta e comprometimento sustentado no espaço do tempo, não unicamente com discurso repetido sobre feitos que nem sempre correspondem à realidade.
O contraponto a essa postura fica em entidades como a CDL Itaquera, com mais de 50 anos de história na área. Seus representantes atuam de forma voluntária, sem salários e sem pretensões políticas, dedicando tempo e trabalho para devolver ao bairro parte do que Itaquera lhes viabilizou no espaço da trajetória profissional e pessoal, entre oportunidades de trabalho e amizades construídas. É esse tipo de exemplo, discreto e contínuo, que precisaria orientar quem deseja de fato representar a comunidade.
Neste cenário, cabe também reconhecer o papel da imprensa de bairro. O Desenvolve Itaquera continua comprometido com a verdade e com o desenvolvimento da área, apurando fatos, dando espaço a quem constrói história de forma silenciosa e cobrando coerência de quem se apresenta como chefia sem entregar resultado concreto à comunidade.
Quando algum tipo de poder, influência ou visibilidade chega às mãos de quem não tem esse comprometimento, o resultado costuma ser o oposto do que a comunidade precisa: decisões tomadas em causa própria, e não em favor do coletivo. Por isso, o alerta se mantém necessário: é preciso desconfiar da raposa vestida de ovelha. Discursos bonitos, presença em fotos, nas casas do poder público, e promessas de representatividade não substituem histórico, comprometimento e transparência. A comunidade tem o direito, e a obrigação, de exigir coerência entre o que se diz e o que se faz.
Esse momento de perdas também é uma oportunidade. Itaquera tem juventude engajada, presente em coletivos, projetos sociais, iniciativas culturais e espaços de participação comunitária. É essa nova geração que pode, com direção e memória do exemplo deixado pelos mais velhos, ocupar os espaços vagos de forma responsável, sem repetir posturas oportunistas do passado.
O legado das chefias que se foram deve servir como parâmetro: chefia de verdade se mede através do que se faz através da comunidade, não através do que se diz sobre si mesmo.
Chefia de conversa de boteco
Fonte: Desenvolveitaquera

